Enquanto muitas tradições associam o divino à preservação ou à criação contínua, Shiva ocupa o ponto mais desconfortável do sagrado: o momento em que algo precisa terminar para que o real continue verdadeiro. Ele governa o colapso do que perdeu sentido.
Essa função aparece de forma clara em três símbolos centrais:
-
O terceiro olho
Quando Shiva o abre, o que é ilusório é reduzido a cinzas. Não por raiva, mas por lucidez absoluta. O terceiro olho não pune — revela. O que não suporta ser visto não merece permanecer. -
A dança de Nataraja
Na dança cósmica, Shiva cria, sustenta e dissolve o universo ao mesmo tempo. Não há começo separado do fim. Tudo pulsa, tudo se desfaz, tudo retorna. É a visão de um cosmos vivo, não fixo. -
O asceta no Himalaia
Shiva escolhe o isolamento não por rejeição do mundo, mas por independência dele. Ele ensina que o apego excessivo à forma impede a verdade. O desapego é método de clareza.
Talvez a maior particularidade de Shiva seja esta:
ele não promete conforto espiritual.
Shiva promete verdade, mesmo quando ela exige a morte de identidades, narrativas e ilusões cuidadosamente mantidas.
Ele não ensina a melhorar o ego.
Ensina a atravessá-lo.
Shiva não chega quando tudo está pronto.
Chega quando não é mais possível fingir que está.

Nenhum comentário:
Postar um comentário