terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Shiva e o paradoxo da destruição criadora

Uma das particularidades mais profundas de Shiva é que ele não destrói por oposição à vida, mas por fidelidade a ela. Em Shiva, destruição não é violência — é função cósmica de equilíbrio.

Enquanto muitas tradições associam o divino à preservação ou à criação contínua, Shiva ocupa o ponto mais desconfortável do sagrado: o momento em que algo precisa terminar para que o real continue verdadeiro. Ele governa o colapso do que perdeu sentido.

Essa função aparece de forma clara em três símbolos centrais:

  • O terceiro olho
    Quando Shiva o abre, o que é ilusório é reduzido a cinzas. Não por raiva, mas por lucidez absoluta. O terceiro olho não pune — revela. O que não suporta ser visto não merece permanecer.

  • A dança de Nataraja
    Na dança cósmica, Shiva cria, sustenta e dissolve o universo ao mesmo tempo. Não há começo separado do fim. Tudo pulsa, tudo se desfaz, tudo retorna. É a visão de um cosmos vivo, não fixo.

  • O asceta no Himalaia
    Shiva escolhe o isolamento não por rejeição do mundo, mas por independência dele. Ele ensina que o apego excessivo à forma impede a verdade. O desapego é método de clareza.

Talvez a maior particularidade de Shiva seja esta:
ele não promete conforto espiritual.

Shiva promete verdade, mesmo quando ela exige a morte de identidades, narrativas e ilusões cuidadosamente mantidas.

Ele não ensina a melhorar o ego.
Ensina a atravessá-lo.

Shiva não chega quando tudo está pronto.
Chega quando não é mais possível fingir que está.

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