Deixei o poço antes de perceber.
O cântaro ficou para
trás, esquecido à beira da pedra. Durante anos, aquele objeto definira meus
horários, meus caminhos, minhas ausências. Agora, não fazia sentido carregá-lo.
A sede tinha outro nome.
O caminho de volta à
cidade parecia o mesmo, mas não era. O sol continuava alto. As pedras, as
mesmas. Mas meu passo mudara. Não havia mais a pressa de quem quer desaparecer.
Andava ereta, sem ensaiar justificativas, sem calcular desvios para evitar
encontros.
As vozes vieram.
Primeiro como memória. Depois, como possibilidade real. Eu sabia o que diriam.
Sempre soube. A diferença era simples e radical: já não precisava responder a
elas.
Quando entrei na
cidade, algumas pessoas pararam. Outras fingiram não me ver. O costume era que
eu passasse rápido, cabeça baixa, invisível. Mas, dessa vez, foi diferente. Eu
não sentia mais necessidade de me defender, nem negociar minha própria
história. Havia algo mais urgente do que explicar quem eu fora. Eu precisava
falar do Messias.
Trecho do livro A Samaritana do poço, entre a sede e a fonte, de Maria Cecile Azambuja
A Samaritana do Poço é um romance de matriz bíblica que
reconstrói, com densidade literária e olhar contemporâneo, uma das passagens
mais emblemáticas do Evangelho de João: o encontro entre Jesus e a mulher
samaritana junto ao poço de Jacó. A obra parte de um episódio breve das
Escrituras para criar uma narrativa profunda sobre identidade, exclusão e
transformação interior.
Na tradição da Igreja Ortodoxa, a mulher samaritana é identificada como Santa Fotina, também chamada Photini ou Svetlana. Seu nome está ligado à ideia de “luz” ou “iluminada”.

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