domingo, 16 de agosto de 2026

A Voz

A VOZ

Meu nome é Nalda e sou uma samaritana.

Não escrevo para explicar a minha gente, nem para pedir que nos compreendam. Escrevo porque a terra onde nasci guarda vozes demais para permanecer em silêncio.

Samaria não é apenas um lugar entre colinas. É uma memória que nunca encontrou repouso. Aqui, cada pedra sabe mais do que diz, e cada caminho carrega marcas de passos que já não estão.

A nossa história não começa onde os outros dizem que começa. Ela brota antes, como a água que sobe do fundo do poço sem pedir licença. Cresci ouvindo nomes como Jacó, José, Gerizim, como quem ouve o vento: sem vê-lo, mas sabendo que ele passa.

O poço sempre esteve ali, mais velho do que qualquer palavra que tentasse explicá-lo.

E, de algum modo, sempre esteve em mim.

Trecho do livro A Samaritana do Poço, entre a sede e a fonte, de Maria Cecile Azambuja.

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